terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
Jesus foi à vida
sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
Procrastinar por aí...
Deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, ou, para usar uma das palavras preferidas do Fiat Lux, procrastinar, tem sido o meu tormento há bem mais de um mês, no que aos meus pequenos prazeres e alguns deveres diz respeito. Tenho três livros começados e não os consigo terminar, vários textos rascunhados e não os consigo estruturar, o ginásio pago e não me consigo exercitar, a casa desorganizada e não a consigo arrumar. Culpa do Inverno, que me rouba a energia, do stress no trabalho, que me deixa desgastada, de sucessivas noitadas, que me transtornam o ritmo circadiano, das estatísticas do blogue, que sofreram uma quebra, e do maldito facebook, que me está a distrair demasiado. No geral, a minha motivação está moribunda e a minha vida um caos, mas não pretendo fazer disso um hábito. Ainda não sei bem como, mas, para o fim da próxima semana, sem falta, tenciono retomar a minha actividade habitual. Se sobreviver até lá.
quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
Não se pode morar nos olhos de um gato
– Esse teu vizinho, disse-lhe a prima, torcendo o nariz, tem um ar de quem faz força para cagar e gosta! – Tu e os teus eufemismos de pacotilha, riu-se ela, ligeiramente picada. – Achas que ele é gay? – Hum, não diria tanto, mas que é um bocado abichanado, lá isso é. – Estúpida, é, apenas, metrossexual e tu estás com inveja, porque ando a bicar num gajo tão bom. – Pode até ser bom todos os dias, mas depilar as pernas, vestir todo pipi e, ainda, viver com dez gatos pretos em casa não me cheira, desculpa, mas não me cheira. Rute morava num prédio antigo em Belém, paredes meias com um trintão lindo, charmoso e todo produzido com quem já tinha trocado uns beijos e uns prometedores apalpões e, agora, vinha a prima lançar dúvidas sobre a sexualidade do dito, tudo por causa de meros pormenores. Chiça! Tinha de tirar isso a limpo. Nessa noite, chamou-o pela janela do pátio. – Ricardo, estás aí? Ele apareceu, em tronco nu, com um dos seus gatos ao ombro. Ela recuou, a tremer. Tinha uma verdadeira fobia a gatos. Mais ainda pretos, que só faziam lembrar desgraças. – Diz, Rute. – Passa aqui mais logo, para tomarmos um copo. – Ok, combinado, levo um vinho óptimo que comprei ontem. Chegou às dez, bem penteado e cheiroso, com uma garrafa de Yes We Can na mão e um sorriso nos lábios. Conversaram, beberam, fumaram à janela e logo se atracaram inebriados pelo vinho e pelo odor das roseiras do quintal, embrulhando-se um no outro, até se afundarem no sofá da sala em primorosos movimentos preliminares. Estavam nisto, quando Ricardo sussurrou: – Dá-me o teu rabinho, princesa, dá-me o teu rabinho. Rute ficou gelada. Não que tivesse alguma coisa contra a criatividade no sexo. Mas só conseguiu pensar na conversa da prima. – Não quero, Ricardo, não quero assim. Ele frisou, mais encrespado: – Dá-me o teu rabinho. Ela repetiu que não e ele pegou-lhe, bruto, na cara, virando-a para o centro da sala. Foi então que ela viu. Viu os dez gatos enfileirados, caudas empinadas, pêlo eriçado, orelhas abertas, olhos esbugalhados e pupilas dilatadas. Depressa saltaram para cima do sofá, miando, uns, bufando, outros, enquanto se esfregavam nela ao mesmo tempo que a lambiam e lhe cravavam os dentes afiados no corpo. Rute entrou em transe. Gritou, chorou convulsivamente, gritou mais ainda. – Tenho medo, Ricardo, tenho muito medo. Tira estes gatos daqui, já. Salva-me, por favor. Não aguento mais. – É muito fácil, querida, ronronou Ricardo, com um lampejo traiçoeiro nos olhos verdes: – Dá-me o teu rabinho, agora!
quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
Mil cães a um osso
terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
domingo, 17 de Janeiro de 2010
O meu amor
Foto: Steven LaxtonO meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele inteira fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai
Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz
Chico Buarque
segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010
A hora do desespero
"Antes da morte, todas as árvores, como todas as mulheres, teimam em resistir e carregam a epiderme, já pronta para o sepulcro, de sais de cobre, de sais opulentos e variados — sem poderem esconder a hora terrível do desespero e da velhice.” Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas.
Cruel, porque verdadeira, a frase de Brandão aponta para um problema que afecta, sobretudo, as mulheres, quando se apercebem do desaparecimento da sua frescura física. Um desaparecimento que provoca o desprezo alheio, como se tal fosse sinónimo de algo mais do que o simples e inevitável avançar do tempo. Repare-se no recente caso de Clara Pinto Correia, 49 anos, bióloga, professora universitária, escritora, nas bocas do mundo, por via de uma exposição de fotografia com os seus orgasmos (!). Perdeu credibilidade, desde que plagiou a New Yorker, mas, se repararmos bem, o maior crime de que a acusam, agora, é o de ter engordado e de já não ser nova e bonita. Atributos que não são necessários para se atingir um orgasmo, mas que são imprescindíveis para se conseguir ter impacto artístico e social. Aliás, basta que imaginem a mesma exposição com os também quase cinquentões George Clooney e Hugh Grant ou, em alternativa, com as ainda tenras Scarlett Johansson e Rachel Weisz para perceberem o meu ponto de vista. Mudaria tudo, certo? Sintomático de uma sociedade machista e fútil, que privilegia o sexo masculino e a aparência jovem, acima de todas as coisas, este é mais um dos preconceitos com que a mulher contemporânea tem de conviver, porquanto um homem velho continua a ser conotado com charme, respeito e sabedoria e uma mulher velha a ser considerada apenas isso mesmo: velha. Velha ridícula, em casos mais flagrantes. Pressionada, não admira, pois, que se defenda como pode, cobrindo-se com cremes milagrosos e maquilhagens exuberantes, recorrendo a um sem número de plásticas, ou tomando algumas atitudes menos ortodoxas. Porque tem de prorrogar o curto prazo de validade que lhe é imposto, porque tem de contrariar a terrível e assustadora hora do desespero e da velhice.
sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
Teoria da bunda perfeita
Dentro do carro, entalado no trânsito citadino, o homem analisa, centímetro a centímetro, as mulheres que progridem no passeio adjacente. De repente, assobia baixinho: uma bunda magnífica, redonda, empinada e apetitosa entra no seu campo de visão e desliza em todo o seu esplendor à mera distância de uma apalpadela. Irrequieto, o homem procura a todo o custo despertar a atenção da dona de tão extraordinário atributo, atirando-lhe um piropo banal e já gasto: Espectáculo! Ela vira-se, imediatamente. É feia. Muito feia, mesmo. Desapontado, ele rosna um palavrão e liga ao melhor amigo, só para lhe dizer: Mais uma, pá. Mais uma que confirma a nossa teoria. Gajas com traseiros irrepreensíveis são, no resto, uns grandes fogões! quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010
TV Lovers
Imagino que em 99,9% das salas de estar das habitações contemporâneas haja um altar dedicado ao deus TV, omnipresente, igualmente, noutros locais da casa, como a cozinha, o escritório e o quarto de cama. Agarradas a um comando, as famílias substituíram, há muito, o diálogo, a leitura e a troca de afectos pelo deslize obsessivo pelas imagens das dezenas (centenas?) de canais de televisão, disponíveis em pacotes cada vez mais completos e anestesiantes. Esvaziadas por jornadas de trabalho esgotantes, endrominadas pela luz que emana do pequeno ecrã, alienadas pela ficção barata que lhes é servida em doses maciças, dominadas pelo vazio do zapping, esquecem-se que a única realidade que lhes resta é a que têm alojada no cérebro e não a que lhes é servida por este meio de comunicação de massas. Porém, se o cérebro não for estimulado, entorpece e morre, produzindo um sem número de zumbis, gente inerte que não sabe pensar, questionar e viver assertivamente. Ver televisão é uma tarefa passiva, ao contrário da leitura, que produz simulações mentais dos sons, cenários, sabores e movimentos descritos, e do diálogo, que obriga à interactividade. Por isso, neste início de ano, que tal desligarem o botão por uma horas, lerem um pouco, e, depois, partilharem algumas ideias com os outros?








